Precisa-se: Auxiliar Geral Sênior. 2


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Quando comecei a trabalhar por volta de 1997 (nem faz tanto tempo assim, afinal ainda sou um mocinho de 31 anos de idade), fui logo a desenvolver técnicas de como carregar um conjunto inteiro de louça sanitária de uma vez só. Calma, explico:

O depósito de materiais para construção onde eu trabalhava recebia a cada três semanas carregamentos completos com colunas, cubas e vasos sanitários… aquilo dava medo! É sério, a pilha tinha pelo menos três andares sobre a carreta da transportadora, era uma “alegria total” quando os “auxiliares gerais juniores” (eu!) escutavam o assobio do “Seu Antônio”, o motorista, ecoando pelos corredores e anunciando a chegada da maledetta carga. Daí pra frente, sabíamos que nada de ir pro colégio a noite, matar aula pra jogar videogame ou papear, aquilo era trabalho que levava, no mínimo, três horas. A empresa não dispunha de equipamentos que facilitassem o trabalho, tinha de ser tudo no braço mesmo.

Mas voltando à técnica que mencionei no início, após um tempo fazendo descarregamento de louças e voltando pra casa moído de cansaço, decidi maximizar o processo. Em uma bela noite, enquanto descarregávamos, pedi para um amigo me ajudar a equilibrar um vaso sanitário na cabeça… ele hesitou é claro, pois bastava uma daquelas peças cair no chão e metade do nosso salário ia pro beleléu. Após insistir, o camarada me ajudou, equilibrei um vaso na cabeça (é, o vaso virado para baixo encaixa direitinho no crânio, recomendo que você tente um dia), peguei uma cuba e uma coluna e segui até o local onde eram empilhadas no armazém. Enfim consegui pôr em prática meu astuto update de processo!

Dalí pra frente, bastaram quinze minutos para todos os juniores estarem experts em equilíbrio. Descarregávamos tudo na metade do tempo.

Pouco tempo depois a empresa precisou de uma manutenção severa no sistema que utilizava, na época desenvolvido em Clipper. O programador e proprietário do sistema fazia consultas regulares à empresa. Não demorou para que um grupinho começasse a se intrometer no serviço do cara, bombardeando o coitado com um monte de perguntas. Eram dois ou três moleques xeretas, que não entendiam nada de computadores, mas ao menos entendíamos de kits sanitários, oh yeah!

Ali começou meu interesse por programação, não pensava em outra coisa senão me tornar um cara igual aquele, parecia que não sentia sono, deitava cinco litros de cafeína por dia goela abaixo e vivia com um maço de Marlboro (as vezes Hollywood) no bolso. Esse cara, visto meu interesse pelo assunto, me descolou uma revista sobre desenvolvimento de sistemas. Aí foi exatamente o ponto onde começou meu romântico e turbulento relacionamento com a área de tecnologia da informação.

Lembro-me de ler nesta e outras revistas especializadas, em meio a jargões técnicos, classificações dos profissionais: Júnior, Pleno, Sênior… ops, Júnior?! Até então só havia visto isso na minha carteira profissional que dizia em garranchos de tinta azul: “Auxiliar Geral Júnior”. Pra mim aquilo foi novidade, fiquei pensando: “Poxa, mas que raio de coisa tenho que fazer pra me tornar um auxiliar geral sênior?”. Naquele ponto não fazia ideia do que realmente se tratavam aquelas determinações.

E agora, será que já sei do que se trata?

Pois é, de 97 pra cá acabei caindo de vez na área, fiz cursinho de computação, técnico e me formei em Análise de Sistemas. Trabalhei anos na área, fiz grandes amigos (diga lá Fernando!), me afastei por um tempo mas depois voltei para a minha amada tecnologia da informação.

Estou há alguns anos trabalhando em uma empresa proprietária de um conhecido sistema E.R.P., fiz novas e fortes amizades e posso dizer que neste ponto já conheci diversos tipos de profissionais, mas faz pouco tempo que venho entendendo o que realmente significam essas classificações, ao menos no meu ponto de vista.

Talvez até mesmo o cara que a inventou lá num passado não muito distante deve ter se sentido frustrado ao ver como essas classificações são empregadas de forma errada no mercado. Vejo que os recrutadores de muitas empresas nem sequer sabem diferenciá-las, da mesma forma quando ridiculamente descrevem os requisitos mínimos dos profissionais para uma vaga de trabalho (veja o excelente artigo escrito pelo Fernando:E se motoristas fossem contratados da mesma maneira que programadores?“).

Isso me remete aos anos no depósito de materiais para construção. Não sou de me gabar e nem gosto de quem o faz, porém percebi que o que realmente me faz ser um profissional valorizado onde trabalho é… a forma como trabalho! Reconheço, na empresa existem desenvolvedores tecnicamente melhores que eu, alguns mais ágeis, outros mais lógicos, mas poucos são aqueles que realmente são empreendedores, ou que conseguem manter a disciplina, seriedade, versáteis o suficiente para lidar com as porradas na orelha que tomamos no dia a dia. Tive a infelicidade de ver potenciais minguarem por pura indisciplina, alguns foram por falta de sorte mesmo, outros eram excelentes, realmente gênios, mas tão estúpidos que não conseguiam sequer respeitar a própria mãe.

Acredito que ao determinar se um profissional é Pleno, Sênior ou seja lá o que o mercado chame, outras características também devem ser consideradas. Muitos Sêniores e Masters de verdade estão por aí caindo na desilusão, acreditando que não são bons o suficiente, simplesmente porque não conseguem atender à uma lista de centenas de linguagens de programação, fluências em línguas estrangeiras e certificações exigidas para as vagas. Digo isto para todas as áreas, até mesmo dos não menos importantes Auxiliares Gerais. Tem muita gente por aí que sabe realmente como trabalhar!

Quem sabe um dia a visão das empresas se torne mais realista, ou melhor dizendo, mais humana.

Até a próxima.

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Sobre Gabriel Angeli

De Campinas-SP, graduado em Análise de Sistemas pela Universidade Paulista. Atua como desenvolvedor líder em uma empresa de consultoria e desenvolvimento de sistemas E.R.P. Gabriel é fanático por games e também adora animação digital, ficção científica e ufologia.

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2 pensamentos em “Precisa-se: Auxiliar Geral Sênior.

  • eduardo costa

    Parabens pelo post…
    Existem dois tipos de competências, as técnicas e as comportamentais as técnicas são mais fáceis de mensurar, medir, comprovar, basta dar uma provinha para o candidato que vocë logo ira saber o quanto ele sabe… Mas e as comportamentais ? essas exigem profissionais de RH competentes e treinados, psicologos etc… para tentar capturar do profissional algo não tangível. As empresas muitas vezes contratam pelas qualificações técnicas mas querem profissionais comportamentalmente competentes.

    Leia o livro: The Clean Coder: A Code of Conduct for Professional Programmers (Robert C. Martin)