Advogada? Secretária? Recepcionista? 2


mulher_ti_casual Ao longo de quase 10 anos trabalhando na área de informática, não sei por que continuo me surpreendendo toda vez que algum novo colega de trabalho tenta adivinhar a minha profissão nos primeiros dias em uma nova empresa. Acho que tenho esperança que algum dia uma mulher no escritório de TI não seja tão ‘incomum’ como tem parecido ser.

As opções acima são algumas das mais comuns ouvidas na minha experiência, mas o mais interessante e que não há como descrever aqui, é a expressão de surpresa e dúvida masculina ao ouvir um: “Analista Programadora”. Se você trabalha na área de TI, provavelmente percebeu que a quantidade de mulheres ao seu redor pode estar crescendo, mas ainda é muito inferior à quantidade de homens, principalmente em posições mais técnicas.

90% das aventureiras que conheci nas empresas eram testers ou analistas de negócio e as poucas programadoras estavam prestes a abandonar o posto para as outras especializações da informática. Mas acredito que o mais interessante a ser ressaltado é o dia-a-dia, pois, você pode até imaginar que uma mulher muda o ambiente e o comportamento da massa masculina mas, feliz ou infelizmente, isso tem fim e tudo volta a ser como antes no escritório.

Eu arriscaria dizer que o processo de adaptação dura aproximadamente dois meses, e não digo isso somente baseada no meu ponto de vista, algumas das citações que farei foram provenientes de colegas de trabalho do sexo oposto.

Fases de Adaptação

1) Fase interessante e no mínimo engraçada: Primeira e Segunda Semana
a) A Chegada: A presença de uma nova funcionária, seja ela atraente ou não, ocasiona determinado rebuliço no escritório e a pergunta da vez é: ‘Qual será o cargo?’ (E junto com essa, as tais suposições exemplificadas no título deste artigo). Porém, se o mesmo já está definido e a chegada do membro feminino é de conhecimento da maioria, a massa masculina sempre vai se perguntar (em voz alta ou não): ‘Como será que ela é?’. Engraçado que, a ínfima quantidade de representantes feminina também faz a mesma pergunta porém, com diferentes objetivos.

b) O Almoço: Confesso que, embora depois de entradas e saídas de várias empresas, ainda me sinto desconfortável para o primeiro almoço. Geralmente, o líder ajuda a quebrar o gelo, e 90% das vezes é um almoço ‘em equipe’ para ambientação, acredito que essa seja a melhor tática para ajudar as novas integrantes que se tornam alvo da atenção e nem sempre sabem lidar com isso. Tive uma experiência diferente em Londres devido à cultura diversificada, é sabido da maioria que ingleses não saem pra almoçar, comem na própria mesa, e isso somente não gerou desconforto porque outros brasileiros estavam entrando na mesma equipe, porém, vale à pena ressaltar, que alguns, não ingleses, mais curiosos (outros diriam audaciosos), nos chamaram pra almoçar o que fez muitos dos outros ficarem admirados com tal ‘coragem’. É de se concluir que o idioma pode mudar, o país pode mudar, mas o comportamento é natural, o mesmo. Aliás, foi exatamente um colega de trabalho daqui de Londres que me fez parar pra avaliar todo o comportamento masculino ao longo dos anos e chegar novamente à conclusão de que bordas territoriais nos separam fisicamente, mas pertenceremos sempre à mesma comunidade.

c) Primeiro Contato Entre Partes – Massa Masculina: Obviamente, o primeiro contato acontecerá com os colegas de trabalho próximo à mesa da nova funcionária. Alguns estão muito ocupados pra conversar ou receosos para fazer o mesmo, eu diria que muitos tímidos, porém, sempre houve pelo menos uma simpática alma que fizesse as boas vindas mais tradicionais, como pela introdução de perguntas: ‘qual empresa você estava?’ ou ‘porque escolheu essa área?’, ‘qual o seu nome mesmo?’
(essa se aplica bem para a minha pessoa, nomes complicados facilitam o primeiro contato e geralmente são o conteúdo da primeira conversa).
Os mais distantes com olhares curiosos e inquietos não ficam só nos olhares, esses levantam-se da cadeira e geralmente criam alguma oportunidade de apresentação. É claro que também há aqueles que simplesmente ignoram, o que também é muito válido, geralmente são os que menos nos fazem sentir ‘vigiadas’.

d) Primeiro Contato Entre Partes – Massa Feminina: As outras presenças femininas do ambiente geralmente criam oportunidades para confraternização (inclusive com as perguntas rotineiras citadas acima), confesso que em ambas as posições, sempre me senti amparada pela presença de outras mulheres no ambiente de TI, sabemos que mais cedo ou mais tarde nos aproximamos e nos agrupamos, um processo muito natural mesmo que seja para almoços somente.  Porém, apesar disso, convenhamos: se você é uma mulher lendo esse artigo e assume determinadas ‘fraquezas’ que nós temos, mulher é mulher e não tentemos nos enganar, a nova presença feminina no escritório ocasionará comentários entre os grupos femininos, e geralmente, após o período de adaptação, compartilhamos tais comentários e isso se torna motivo de muitas risadas. Espero que essa tenha sido a experiência de todas. 😉

2) Dança de Cadeiras: Terceira e Quarta Semanas
As terceira e quarta semanas correspondem a um período de transição de grupos, a nova funcionária geralmente terá contato com todos os grupos e diferentes convites partirão ao longo desse período. Nesse momento, muitos da massa masculina já fizeram contato e já se tornaram mais próximos, e alguma presença feminina também já permitiu uma abertura. Geralmente a nova funcionária perceberá os mais interessados e os menos interessados, as mais simpáticas e as mais tímidas, é o período no qual o contato profissional é mais acentuado, o que ocasiona a amplificação de rearranjo dos grupos.

3) Definição: Segundo Mês
Durante esse período, os almoços se tornam mais regulares e os olhares já não são mais curiosos, as poucas mulheres já se encontraram algumas vezes no banheiro e inicia-se o processo de definição do grupo no qual a nova funcionária se encaixará. Os mais tímidos da massa masculina terão contato mais ‘particular’ à nova integrante, pois a fase de rebuliço já passou e ela se encontra mais vezes sozinha no café do que antes. Nesse momento, os colegas de trabalho já possuem bastante informação sobre a nova integrante, e, se era de interesse de alguém uma proximidade ‘maior’, no momento de definição é que os ‘fogos de palha’ saem e as amizades começam a ser lapidadas.

4) Tudo Volta a Ser Como Antes
Confesso, tenho que confessar… Esse é o momento mais interessante e mais aproveitador de toda a minha experiência de trabalho com maioria masculina… Por quê? Resposta óbvia: Você passa a ver mais claramente o REAL universo masculino em confissões declaradas (de muitas coisas que nós mulheres já sabemos mas não queremos admitir). Com certeza, há vantagens e desvantagens em tudo e não é diferente na convivência de poucas mulheres com muitos homens (ou vice-versa, imagino).  Cheguei a listar determinados comentários que já ouvi no escritório, mas devido ao meu lado diplomata (toda mulher em TI tem que ser um pouco), prefiro deixar para que os curiosos me perguntem…

O lado do bom humor conta muito para que a convivência seja pacífica e proveitosa, no final das contas, o lado profissional vai prevalecer e não haverá diferenças de tratamento para este lado da convivência, afinal, todos são profissionais… As histórias engraçadas das diferenças de sexo e comportamentais somente nos farão aprender mais uns sobre os outros, e quem sabe as mulheres de TI ou aquelas que convivem com grande quantidade de colegas de trabalho do sexo oposto sejam as ‘especialistas em Marte’? 😉

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Sobre Thayani Conaggin

De Londres-UK, bacharel em Analise de Sistemas pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Técnica em Processamento de Dados pelo Cotuca. Trabalhou na área por aproximadamente 10 anos. Iniciou sua carreira como estagiária no Hospital de Clinicas da Unicamp em 1999 e, desde então, trabalhou com diversas tecnologias, sendo os últimos anos dedicados à programação Java. Devido ao aumento expressivo de empresas internacionais investindo em outsourcing no Brasil, em 2006 resolveu investir na comunicação através do estudo da língua inglesa e devido a isso, trabalhou em projetos para clientes internacionais. Atualmente mora em Londres e após realizar curso de business english assim que chegou no pais, não trabalha por motivos pessoais, porém mantém-se atualizada através de desenvolvimento de websites pessoais. Seus objetivos estão relacionados à área de analise de negócios.

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