A Cadeira do Seu Claudio 1


CadeiraSeu Claudio era um daqueles caras que sabem das coisas. Bem quero dizer, das coisas do mundo corporativo.

Eu ainda era estagiário quando um dia minha chefe me chamou e disse: “vamos aproveitar que estamos de férias coletivas para ensinar alguns gerentes a utilizar o microcomputador. Então, durante uma semana você vai lá na gerência de compras ensinar o chefão a utilizar o correio eletrônico mais os procedimentos básicos para administração de arquivos no PC”.

O cenário era bem típico do início dos anos 90; a plataforma era MS-DOS, as redes de computação baseadas em PC estavam acabando de chegar e o momento era de downsing no Correio Eletrônico que, até então, estava no mainframe. Bom, até aí nenhuma novidade para mim visto que eu havia sido contratado pela empresa justamente para auxiliar neste processo de transição da tecnologia, mas para o Seu Claudio…

Já no segundo dia de “aula” quando cheguei na sala dele a secretária me disse: “hoje você vai sentar na cadeira do Sr. Claudio”. Meio que amedrontado, perguntei-lhe a razão e fui obrigado a ouvir um simples espere e verá. Seu Claudio era um Senhor gordo do tipo bonachão, cabelos grisalhos… a sala dele era coberta de troféus do Jeep Club e outras entidades do meio automobilístico. Eu tive uma boa impressão dele no primeiro dia, mas eu não imaginava que o que ele estava por me dizer nos próximos minutos…

“Tá gostoso sentar aí”, perguntou-me o Seu Claudio. Confesso-lhes que era uma cadeira bastante diferenciada, do tipo dos filmes holywoodianos. “É boa sim”, respondi. “Então, meu caro” – continuou-se seu Claudio – “eu vou te ensinar umas coisas para que um dia você possa estar sentado numa destas”. Eu, como todo bom cara de informática e com um objetivo bem claro em mente, até insisti um pouco sobre os motivos de eu estar ali (ensiná-lo a mexer no computador), mas ele me disse que ali já estava um dos meus primeiros erros: “os caras da tecnologia pensam que sabem o que os caras de negócio precisam”. Bom já deu para imaginar a minha situação: eu, um humilde estagiário de tecnologia frente a um experiente homem de negócio cujo objetivo era ganhar dinheiro para a empresa (anos mais tarde até adquiri esta habilidade de ver a mesma coisa -a tecnologia- com perspectivas diferentes dentro da organização).

Mas agora, o que realmente gostaria de compartilhar com vocês (não estou dizendo que isto seja certo ou errado estou apenas compartilhando o que ouvi) é o segredo do sucesso no mundo corporativo segundo Seu Claudio. Primeiro você tem que ser político, segundo você tem que ser esperto e terceiro tem que “suar a camisa”. Segundo o Seu Claudio o cara que é só político um dia cai fora da organização, pois quando a estrutura que o segura na política muda ele acaba ficando numa “berlinda”. O cara que é só esperto e está sempre procurando se dar bem (tirando vantagem de fato) um dia acaba sendo pego e aí, acaba “rodando”. Agora o cara que só trabalha, este sim não vai ter perigo de ser mandado embora, pois a empresa precisa dos “burros de carga”. A teoria preza que se o profissional for capaz de identificar quando precisa ser político, quando precisa ser esperto e quando tem que trabalhar duro, ou seja, o equilíbrio das três competências vai conseguir chegar na cadeira do Seu Claudio.

Eu não sei se a teoria dele serve de base para desenhar uma carreira de TI (mesmo porque carreira é uma coisa muito pessoal), mas o fato que serve de reflexão para abstrairmos alguns detalhes que fazem sim diferença. Por exemplo: política existe sim e vai continuar existindo no mundo corporativo; dependendo da onde você quer chegar vai ter que aprender a lidar com o melhor/pior dela.

Bom, a cadeira do Seu Claudio tá lá (em várias empresas). É você quem tem que decidir se quer sentar-se nela ou não. Mas, se me permitem, não destrua seus princípios pessoais caso decida por chegar lá, pois um dia você pode se arrepender. Boa jornada!

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Sobre Anderson Camargo

De Campinas-SP, bacharel em Análise de Sistemas e pós graduado em Gestão Empresarial (MBA Executivo). Certificado em ITIL, atua como professor do curso de Ciência da Computação na Faculdade Anhanguera Educacional de Campinas.

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